É sempre 1ma linha desenhada a branco que separa um horizonte que desejamos possuir ou modificar do espaço próximo que já alterámos deste lado!

É sempre 1ma linha (semelhante  a da imagem) que nos limita e pretende proibir que nos afastemos para o lado de lá, que é quase sempre o local de devaneio das nossas suposições quando a cadencia se torna constante, quase monótona e confortável...

É 1ma linha sem fim ou que nem se pretende calcular, mas sabemos que seguindo-a encontramos um objectivo ou um suposto sonho...

Do lado onde ela se inicia há sempre um ruído ou por vezes um desespero que pode ser tangente!

É quase sempre a pressa e a urgência de uma ultrapassagem... São os nosso monstros vigorosos mas traiçoeiros vindos pelas costas como os cobardes!

Se do seu inicio e para um dos lados o perigo nos pisca o olho, nos acaricia e afaga, do outro nasce a fantasia e o desejo de mudança que o imaginário da viagem nos dá!

De 1 dos lados ou nos surge a tempestuosa e relevante irregularidade monumental de múltiplos ou raros relevos ou um ténue ou acentuado contraste com a quietude plana, simples e profunda, como a de Trás os Montes ou Alto Douro.

Texturas, luz e cores misturam se com os desvios do olhar, e surpreende-nos o conforto da frescura numa sombra sobre a estrada quando atravessamos as tórridas planícies do Ribatejo.

O que há de comum entre a macieza das folhas que o vento movimenta e o pensamento errante, quer no Norte, quer no Sul?

E não haverá uma grande diferença entre andar na Montanha ou na Estrada?
Sim, claro que há.
Se numa a mobilidade, o rigor físico e as cores se unem, na estrada a mobilidade é o limite.

Se na montanha o céu e a terra nos envolvem... Na estrada é a cadência e a distância que fazem essa constante que importa ter.
Mas é a excitação e a surpresa que nos move em ambas.

Por vezes cismo, outras penso que não penso em nada... Até ás vezes julgo que sou a natureza e só acordo com o ruído fresco do vento a passar pelo corpo suado.
Com a idade optei pela pedalada permanente e pelo inevitável e esperado cansaço lento e deixo para o local onde ficam as recordações a explosão, a energia e os trilhos de paisagens virgens e naturais.
Penso assim no tempo dilatado enquanto pedalo na Nacional 4 ou na Nacional 222 :)


Reflexões  de um ciclista enquanto pedala nas Nacionais e sobrevive :)
Agosto 2015

Obs: Curioso!.....Em toda a minha carreira de arquitecto tenho sido eu a definir as linhas!.... Agora como ciclista e nas nacionais são "essas linhas brancas e infinitas" que me tem guiado (desenhado) o percurso  :)..!


Talvez por me ter transformando em ciclista diário pense que, para nos aproximarmos mais dessa emoção a que chamamos felicidade e bem estar, seja indispensável voltarmos a desenvolver a locomoção através dos esforços físicos e, por outro lado, encarar o desenvolvimento global cada vez com mais ênfase no trabalho criativo e intelectual, sempre com a premissa de distribuir a todo o ser humano os bens materiais essenciais.

E ao mesmo tempo solicitar a ampliação do espaço e do tempo dito livre e preenche-lo com a ausência de tudo mas sempre pleno de nada!
 smile emoticon
Ou seja, virar o desejo para a utilidade e o prazer para a "animalidade"!

Será que se encontram nestas  premissas a consubstancialização fundamental do objectivo humano?



Eliseu



Por que sinto encanto e fascínio sempre que num bar da Andaluzia, encostado ao balcão, distraidamente, observo os cartazes das paredes?

O regozijo não está no sabor das "tapas" ou nos sons de conversas excitantes que me rodeiam - disso tenho a certeza! Há um outro mistério disfarçado de exaltação sempre que nesses bares Andaluzes os meus pensamentos divergem para outros lugares onde também estão registadas as tardes fatais de certos toureiros que se transformaram em mitos! Morrer na arena não é uma boa composição nem tem grande estética, mas cria emoção, muita paixão e deslumbramento nos chamados de aficionados. Nunca me considerei aficionado, mas observo...e admiro um matador.

A arte, se a houver, só a encontraremos  na "faena": misto de técnica, perfeição, rigor, medo e respeito! No movimento... na vibração das emoções... no entusiasmo pungente entre o perigo e a certeza ou na linha que separa o desregramento das sensações da vertigem registada no despudor da insanidade humana! A festa virá do excitante confronto contido entre a vida e a morte... essa imagem do touro negro envolto em sangue vivo é o fim, a imagem bela ou feia, mas cruel, a desolação tal como um dia a teremos que encontrar... é forte, é negativa - como também a pode ser alguma da arte!

Em minha opinião, o fim das TOURADAS pode nem representar uma perda cultural, uma vez que é evidente que as tradições violentas tenham de ser gradualmente extintas, num quadro de evolução civilizacional. Então o que se irá perder é a Festa (não confundir com espectáculo!), a simbologia de bravura e dignidade. PERDEM-SE as reminiscências da cultura marialva face à inevitável prepotência da morte e da diversidade masculina…e desaparecerá com ela o valor simbólico do poder machista. Talvez, futuramente, a estratificação social também se atenue e endureçam outras formas de culturas. Talvez também a nobreza e o poder se desvaneçam e tudo se torne muito mais igualitário… mas vamos perder o último júbilo (a guerra, essa, é que é só atrocidade!) de assistir a rituais de vida e morte de dimensão mitológica.

O imaginário masculino de poder, regozijo e honra tenderá a debilitar-se perante a contradição e alguma (muita ou pouca) mesquinhez da identidade masculina. As culturas mudam e transformam-se por serem multifacetadas e nascerem de convicções filantrópicas.

Adoro ver um Matador… Sei que “peco” por gostar do agora classificado de ignóbil e monstruoso! … As violações, a fome e a tirania não as tolero jamais… mas as TOURADAS que desapareçam de cena lentamente…assim como se morre de velhice.


Peço desculpa por simpatizar com essa VIOLÊNCIA.


Lês- te até ao fim? ... Ah! Então agora sim ... podes bater-me ! :)
Eliseu
Sim Existe mas está  Está é encerrada ! :)

O Aqueduto das águas Livres é considerado uma das mais notáveis obras de sempre da engenharia hidráulica de águas aduzidas e um dos raros e mais complexos abastecimentos de água do século XVIII. ...                                  
 Há que lhe dar valor, sem duvida, não somente como peça museológica para admirar mas também como obra útil e pratica como ainda pode acontecer no Vale de Alcântara :) . Para tal basta recuperar a ligação para pessoas e bens em deslocação suave como alias esteve programada desde a origem do projecto .
.É uma pena que o belo Aqueduto das Aguas Livres na zona quase intransponível  Vale de Alcântara tenha deixado de ser viaduto para pessoas e bens (a que hoje chamamos Pedestres e Veículos de Mobilidade Suave ou Vulnerável!)!. .................
Recordo que há quase 300 anos já os nossos engenheiros militares Carlos Mardel, Ludovice, Manuel da Maia, Reinaldo Manuel dos Santos com D. João V e a população de Lisboa com a sua contribuição através dos impostos sobre a carne, a palha etc, ofereceram à cidade esta obra ímpar de arquitectura e engenharia na transposição do vale  com 127 arcos em 941 metros e 3.5 metros de largura.
Se conhecemos e admiramos os 21 arcos de volta perfeita e 14 em ogiva do aqueduto na transposição do Vale com certeza que sabemos dos 2 caminhos laterais com 60 cm (1 de cada lado )!
Teremos ainda medo dos empurrões de Diogo Alves ou do apelo dos 65 metros aos desesperados da vida!..?
Mas actualmente todos sabemos das técnicas de segurança quer para estes medos ou os possíveis vandalismos a um tão belo Monumento Nacional! Certo?

Já há muito que o Aqueduto das Aguas Livres perdeu a função para que foi desenhado e construído. Mas neste profundo  vale deve a beleza e a história perverter a sua outra função? _ A de viaduto para deslocações suaves sobre o vale profundo.. Ou seja permitir de um modo fácil a árdua travessia do vale para pessoas a pé, com carrinhos de bebés ou até compras, skaters, patinadores, e claro os que mais cobição a abertura permanente do portão poente_ Os ciclistas em deslocação diária ou lúdica :)

Saudações Desportivas.
Eliseu
Imagem do arquitecto Daniel Lobo
Um texto de Daniel Lobo

O entusiasmo com que o Eliseu acolheu a ideia de fazer um passeio de bicicleta em beneficência das crianças do bairro da Torre (um bairro precário junto ao Aeroporto Humberto Delgado) foi determinante para dar um primeiro impulso a um projecto que vinha sendo planeado no GESTUAL (Grupo de Estudos Sócio-Territoriais, Urbanos e de Acção Local, da FA-ULisboa) por iniciativa de uma estagiária apaixonada por bicicletas (Cecília Obbili), que com o meu apoio (entusiasta do recreio activo – ver página da campanha Um Novo Conceito de Parque Infantil) e o dos moradores do bairro da Torre (principalmente as crianças e jovens, e outros menos jovens mas não menos entusiastas) viria a resultar numa proposta de projecto de intervenção – “Bicicletas no bairro da Torre” – que pretende promover o acesso das crianças e jovens residentes no bairro da Torre a atividades de recreio ativo ligadas ao uso da bicicleta, uma das atividades que mais tem interessado aos jovens moradores.
Nesta primeira fase procurar-se-á obter ferramentas e outros apoios para que seja possível montar uma cicloficina no bairro da Torre, e este passeio de bicicleta irá contribuir para que isso seja possível. A necessidade prende-se com o facto de só uma minoria de moradores ter acesso a uma bicicleta, e aqueles que têm passarem longos períodos sem a poder utilizar uma vez que não têm os meios (e por vezes os conhecimentos) necessários para as reparar. Numa perspetiva de capacitação, empoderamento e mobilização da comunidade, e através de uma abordagem colaborativa e de integração de actores externos pretende-se preparar os moradores (principalmente os mais jovens) para a reciclagem e reparação de bicicletas, e obter os meios necessários para o fazer.
Esperamos que mais gente se úna em torno desta causa participando ou apadrinhando este passeio, fazendo um donativo, ou entrando em contacto comigo para saber como apoiar/participar.


Bairro da Torre   
                                                            
A situação de ocupação ilegal em que o bairro se encontra há mais de 40 anos, embora geralmente vista como legítima face à falta de resposta do Estado em matéria de habitação social, tem dificultado o investimento por parte das entidades públicas e relegado a sua população carenciada aos seus próprios meios na criação de condições condignas de habitabilidade.
O desânimo e desespero vividos por esta população aliados à sua falta de meios e à dificuldade da melhoria das suas condições de habitabilidade por parte das entidades públicas, tem criado condições higieno-sanitárias e habitacionais graves. São exemplo disso os esgotos a céu aberto e a constante acumulação de lixo um pouco por todo o bairro por falta de controlo das entidades competentes e falta de contentores e recolha do mesmo (tem propagado maus cheiros e pragas como ratos e cobras), o descontrolo da vegetação que ao arder tem posto em risco as habitações, a falta de água canalizada de 1/3 das habitações que dura há cerca de 6 anos, a falta de eletricidade que afeta o bairro há mais de 9 meses, a falta de pavimentação nos espaços de utilização comum que em tempo de chuva cria dificuldades de circulação devido à concentração de lamaçais.
A pobreza, a doença e o difícil dia-a-dia desta população de 230 moradores, dos quais 65 são crianças e jovens, torna difícil o acesso a espaços, equipamentos e atividades de recreio dentro e fora do bairro, e porventura o estigma e isolamento a que muitos estão sujeitos tem dificultado a ação no bairro por parte de entidades externas, não havendo neste momento nenhum espaço, equipamento ou atividade de recreio para a população mais jovem, somente atividades de diversão noturna para adultos. 





A necessidade de recreio activo
As doenças crónicas não transmissíveis são hoje a principal causa de morbilidade e mortalidade das sociedades desenvolvidas e são as principais responsáveis por situações de incapacidade e perda de qualidade de vida, com um impacto significativo no consumo de serviços de saúde e medicamentos, representando em 2000, a nível europeu, cerca de 75% da carga da doença expressa em DALYs[1]. Os factores determinantes da saúde decorrem não só de factores individuais (genéticos, biológicos e psicológicos) mas cada vez mais de factores ambientais, económicos, sociais e culturais (estima-se que 70% dos determinantes estejam fora do sector da saúde[2]). Por isso, nos últimos 30 anos a promoção da saúde pública passou de uma perspetiva centrada no indivíduo para uma centrada nos determinantes contextuais da saúde[3], as redes e programas implementados passaram a focalizar-se em ambientes específicos com destaque para as escolas, os locais de trabalho e as cidades, e a orientar-se principalmente para a capacitação das pessoas e para a criação de condições ambientais, organizacionais e sociais mais favoráveis à saúde[4].
A Organização Mundial da Saúde, no seguimento de iniciativas anteriores, propôs em 2004 uma estratégia global para a alimentação, o exercício físico e a saúde, reconhecendo que as doenças crónicas não transmissíveis representavam 60% de todas as causas de morte e que eram geradoras de 47% dos encargos gerais com a saúde. Situação que, no entanto, exibe uma preocupante tendência para se acentuar, na medida em que no ano 2020 estima-se que aquelas percentagens subam, respectivamente, para 73% e 60%[5].
A má alimentação e a inactividade física explicam, em grande parte, aquela tendência crescente, uma vez que está comprovada a sua relação com o aumento de doenças crónicas assim como de incapacidades e de mortes prematuras evitáveis.
Tanto os factores citados como as doenças crónicas determinadas por aqueles factores (ex.: doenças cardiovasculares, diabetes, cancro, doenças respiratórias, obesidade e doenças osteoarticulares), as quais têm uma expressão epidémica que exibe curvas não só crescentes como descontroladas, têm em muitos casos, como denominador comum o facto de estarem associadas a comportamentos. É portanto fazendo uso do conhecimento sobre as relações causa-efeito dos factores de risco e das doenças crónicas referidas e desenvolvendo mecanismos de intervenção rápida e eficaz na mudança de comportamentos numa perspectiva de prevenção, que se poderá impedir cenários futuros ainda mais graves.
Há agora evidência sobre intervenções que proporcionam experiências positivas a crianças nos primeiros 10 anos de vida como determinantes para a prevenção de hábitos de vida mais sedentários durante a vida adulta[6]. O que terá repercussões positivas na educação dos filhos destas crianças, criando um ciclo virtuoso com potencial de se perpetuar [7],[8]. O período entre a infância e a adolescência é igualmente importante uma vez que as habilidades de movimento desenvolvidas nesta fase representam a base de toda a actividade física futura [9].   
É também de notar a relação entre o declínio do recreio livre das crianças nos últimos 50 anos (principalmente o recreio social, ou seja, com outras crianças ou adultos) e o aumento da ansiedade, depressão, suicídio e sentimentos de desamparo e narcisismo entre crianças, adolescentes e jovens adultos internacionalmente. [10]




Pelos limites de Lisboa: um percurso de transposições
A cidade é geralmente vista como lugar em que os pobres estão predestinados à periferia, às piores áreas, aquelas que são mais desvalorizadas, mais sensíveis ambientalmente. A falta de alternativas formais de cidade perante os baixos rendimentos dos mais desfavorecidos resultam na auto-produção dessas alternativas pelos que delas têm necessidade.
Múltiplas inovações de iniciativa pública têm sido realizadas em Portugal para intervir sobre este fenómeno, reconhecidas internacionalmente pelo seu impacto e carácter emancipador, principalmente o Serviço de Apoio Ambulatório Local, mas também outros mais recentes como a Iniciativa Bairros Críticos, o Orçamento Participativo e o programa BipZip, no município de Lisboa. Para além destes foram implementados em Portugal pela primeira vez dois programas de qualificação de subúrbios, o PROQUAL (lançado em 2002) e o Urban II (lançado em 2002-2006), precedidos pelo Programa Especial de Realojamento (PER) implementado em 1993. Apesar dos avanços, existem territórios que persistem em situação de grave precariedade e exclusão sócio-espacial há várias décadas, nos quais alguns dos programas acima referidos já intervieram, mas que não foram suficientes para a resolver. São alguns exemplos o bairro da Torre em Loures, o bairro Terras da Costa em Almada ou o bairro Alto da Cova da Moura na Amadora.
A dimensão do fenómeno é desconhecida assim como a escala do sofrimento e da violação de direitos fundamentais em resultado da precaridade das condições de habitabilidade, e da exclusão e estigmatização a que estão sujeitos. A relatora especial das Nações Unidas sobre o direito a uma habitação condigna, numa visita ao bairro da Torre em dezembro de 2016, indicava tratar-se de “um flagelo vergonhoso (…) sobretudo num país desenvolvido que ratificou vários instrumentos internacionais em matéria de direitos humanos que visam proteger o direito a uma habitação condigna” (Heller e Farha 2016).
Em 2011, existiam em Portugal 6612 habitações não clássicas, i.e., barracas, acampamentos ou alojamentos móveis, que representavam menos de 0,11% do total do parque habitacional (INE, 2012a). No entanto o fenómeno poderá ser maior do que se julga. Segundo o diagnóstico do Plano Estratégico de Habitação – 2007/2013, existiam em Portugal cerca de 2 milhões de pobres, 5.000 sem abrigo, e estariam inscritas em listas de espera para as habitações sociais mais de 40.000 famílias. Também há uma fraca expressão de fogos de habitação social, (2,0% do total de fogos) (INE, 2012) e embora o número de fogos tenha ultrapassado o total de famílias residentes (+ 1822 mil alojamentos que famílias), muitas famílias permanecem sem acesso a uma habitação condigna (132 mil alojamentos identificados com carências habitacionais) (INE, 2012). Esta situação tem sido agravada pela crise financeira e medidas de austeridade que conduziram a um aumento das taxas de pobreza e exclusão habitacional, e que incluem agora “novos pobres” que poderão não ter direito a determinadas proteções da segurança social.   
Qual é o papel do poder do público perante esta situação?


São muitas as evidências do enfraquecimento do Estado-providência e dos atuais regimes democráticos representativos e da sua gradual subjugação pelos interesses económicos e políticos partilhados pelos grupos e indivíduos mais poderosos para prejuízo da maioria das pessoas, principalmente dos que se encontram em situação de maior vulnerabilidade (Martin 1997, Teeple 1995, citado em Hamel et al 2000: 153). A influência ao nível nacional dos processos de globalização, em particular os do capital financeiro, a dualização dos mercados de trabalho que levaram ao aumento dos empregos informais e precários, e a mudança nas políticas sociais, aumentou o número de pessoas sem abrigo a viver nas maiores cidades de hoje (Hamel et al 2000: 145). Estes e outros processos de globalização têm sido apontados como as principais causas de exclusão que têm tido lugar maioritariamente em áreas urbanas (Dangschat 1995; Huster 1997).
A erosão do espaço público tem obrigado a que muitos evitem algum tipo de exercício de poder social democrático que represente uma ameaça aos interesses económicos e sociais dominantes (Fraser 1990; Harvey 1992), o que tem levado a uma constrição do espaço público: “as políticas interativas e discursivas foram efetivamente banidas dos pontos de encontro da cidade; os planeadores corporativos e estaduais criaram ambientes baseados em desejos de segurança ao invés de interação, para o entretenimento em vez da (talvez divisiva) política.” (Crilley 1993; Garreau 1991; Goss 1992; Sorkin 1992 em Mitchell 1995:119). Os espaços são pensados segundo a perceção da necessidade de ordem, vigilância e controlo sobre o comportamento do público (Mitchell 1995:119), e em nome do conforto, segurança e lucro, a atividade política é substituída por um espetáculo altamente mercantilizado, desenhado para vender (Boyer 1992; Crawford 1992; Garreau 1991:48-52), muito ao contrário do espaço de ágora idealizado onde a política e o comércio se encontravam criando um público democrático e interativo (Hartley 1992).

Atualmente, a literatura sobre o assunto sugere que o espaço público no mundo ocidental não representa mais o espaço do público, mas apenas uma parte estreitamente prescrita dele (Mitchell, 1995: 120). Para muitos críticos, isso deve-se aos princípios modernos de uma natureza de espetáculo altamente mercantil, concebida para o lucro, para a segurança e para manter a estabilidade social e política (Boyer 1992; Crawford 1992; Garreau 1991: 48 – 52). Isto tem tido profundas implicações no valor de troca das relações humanas, e tem criado espaços que não permitem uma interação social direta em público, livre de mediação, o que diminui a interação das pessoas com o público real (isto é, o público que abrange todos, incluindo os sem-abrigo e os ativistas políticos) cuja legitimidade como membros do público se está a tornar injustamente questionável (Mitchell 1995: 120).
O problema poderá também estar naquilo que Beck refere como sendo o ‘cidadão dividido’, sobre o qual, o projeto da sociedade industrial foi criado e a relação entre a transformação social e direção política foi originalmente concebido. Um cidadão que por um lado se representa como tendo direitos democráticos em todas as áreas da formação da vontade política, e por outro defende os seus interesses privados em matéria laboral e de negócios. A esfera político-económica da democracia representativa e da participação dos cidadãos não se mistura com a esfera tecno-económica de interesses, os quais, por contraste, não são considerados políticos (Beck 1992: 183).
A introdução de novas tecnologias de comunicação no quotidiano das sociedades contemporâneas em todo o mundo permitiu uma crescente participação social, política e cultural, em particular das pessoas e regiões mais marginalizadas (Sheller 2004). As redes sociais suportadas por telemóveis ou computadores têm criado novos tipos de comunidades e de redes sociais com interesses partilhados, tanto formadas em espaços físicos como em ciberespaços (Wellman, 2001), formando assim a base dos novos públicos. Mas o efeito de exclusão que estas redes implicam, tanto por escolha ou por falta de meios, está a dificultar uma participação verdadeiramente democrática, e a sugerir a tendência para uma crescente incapacidade de engajamento com a vida pública.
Para Mimi Sheller, nos contextos de comunicação móvel e de “urbanismo fragmentado” (Graham e Marvin, 2001) os espaços públicos não existem mais na sua forma “moderna” de ruas e praças, de espaços semipúblicos para reunir e falar como os cafés, e da esfera pública dos media como os jornais, rádio e televisão e agora a internet. A noção de novo público para Sheller baseia-se nos novos tipos de ‘comunidades pessoais’ e ‘networking personalizado’ produzidas pelas redes sociais e suportadas por computadores e telemóveis, em que as comunidades se formam tanto em espaços físicos como em cyberespaços.
Sheller adopta a versão de urbanismo fragmentado referido por Graham e Marvin, como tendo grandes implicações nas possibilidades democráticas da cidade, incluindo “o abandono efetivo do ideal (sempre problemático) da cidade coesa, integrada e aberta que pode ser caracterizada como tendo alguma unidade orgânica” (2001: 302). No entanto sugere a existência de uma espécie de espaço social fluido onde acontece a comunicação permitida pelas condições cada vez mais móveis onde esta comunicação ocorre, e “onde coexistem ausência e presença, pessoal e impessoal, micro e macro, local e global” (Sheller, 2004: 46).
Para Sheller é bastante claro que a própria existência de espaços públicos e de vida pública está ameaçada face ao “recuo de uma sociedade que tende a ser mais privatizada, doméstica, consumista, fechada nos casulos de transporte da cidade pós-moderna, usando redes de alta capacidade, especialmente redes viárias, de telecomunicações, de televisão, para estender fisicamente as suas ações e ligar-se a mundos sociais mais alargados, para além da região urbana” (Graham and Marvin, 2001: 210 em Sheller, 2004: 42). Assim, defende que até que se reconheçam as “novas possibilidades dos públicos móveis no seio das infraestruturas desagragadas do urbanismo, seremos incapazes de contrapôr as poderosas forças da privatização, da exclusão social e da desigualdade duradoura, que já estão alinhadas contra a participação democrática” (Sheller, 2004: 50).
Apesar do atual contexto dificultar a sustentabilidade da vida tal como a conhecemos, é essencialmente na mente e na perceção do indivíduo que parece estar a pedra angular e a fundação para a edificação de uma agenda urbana verdadeiramente democrática e participativa. Há por isso necessidade de encontrar formas de consciencializar o indivíduo, de o informar, sensibilizar, para o mobilizar e empoderar na ação coletiva, e criar a mudança de comportamento necessária para que o ‘cidadão dividido’ referido por Beck, deixe de o ser.
É este o desafio que aqui também se coloca num passeio de bicicleta pelos limites de Lisboa, que para mim representa acima de tudo uma experiência de transposição, num exercício de equilíbrio por entre o espaço social fluido referido por Sheller, “onde coexistem ausência e a presença, pessoal e impessoal, micro e macro, local e global” (2004: 46).
Um passeio que procura ir para além dos casulos de transporte da cidade pós-moderna, que procura transpor a barreira entre o centro e a periferia, entre o monumental e o marginal, procura criar uma interacção social directa, livre de mediação, com aqueles que são mais excluídos, que procura ultrapassar a tendência para a defesa dos interesses privados em detrimento dos interesses colectivos, que transpõe o ideal da cidade coesa, integrada e aberta.
Também na transposição entre a fluidez e a fragmentação social do espaço, arriscamo-nos a ser portadores de novos olhares, ideias e intenções, de diálogos, interesses e visões que ora se encontram ora desencontram num constante rendilhar de percursos que se conflituam e questionam, mas que acima de tudo participam e fazem participar nas novas possibilidades da cidade de Lisboa.

Arquitecto Daniel Lobo


Beck, U. (1992) Risk Society, London: Sage Publications.
Boyer, M. C. (1992) ‘Cities for Sale: Merchandising History at South Street Seaport’, in M. Sorkin (ed.) Variations on a Theme Park: The New American City and the End of Public Space, New York: Hill and Wang, 181-204.
Crawford, M. (1992) ‘The World in a Shopping Mall’, in M. Sorkin (ed.) Variations on a Theme Park: The New American City and the End of Public Space, New York: Hill and Wang, 3-30.
Crilley, D. (1993) ‘Megastructures and Urban Change: Aesthetics, Ideology and Design’, in P. Knox (ed.) The Restless Urban Landscape, Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 127-164.
Dangschat, J. (1995) ‘“Stadt” als ort und ursache von armut und sozialer ausgrenzung’, Aus Politik und Zeitgeschichte, B31, 2, 50.
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Graham, S. e S. Marvin (2001) Splintering Urbanism: Networked Infrastructures, Technological Mobilities and the Urban Condition, London: Routledge.
Garreau, J. (1991) Edge City: Life on the New Frontier, New York: Doubleday.
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Hamel, P., H. Lustiger-Thaler e M. Mayer (eds) (2000) Urban Movements in a Globalising World, London: Routledge.
Hartley, J. (1992) The Politics of Pictures: The Creation of the Public in the Age of Popular Media, London: Routledge.
Harvey, D. (1992) ‘Social Justice, Postmodernism and the City’, International Journal of Urban and Regional Research, 16, 4, 588-601.
Heller, L. e Farha, L. (2016) Declaração de Fim de Missão, Visita Oficial a Portugal de Ralatores Especiais das Nações Unidas sobre os direitos humanos à água e ao saneamento e sobre o direito a uma habitação condigna, entre 5 a 13 de dezembro de 2016.
Huster, E.-U (1997), ‘Zentralisierung der politik und globalisierung der okonomie: veranderungen der rahmenbedingungen fur die soziale stadt’, in W. Hanesch (ed.) Uberlebt die Soziale Stadt? Konzeption, Krise und Persperktiven Kommunaler Sozialstaatlichkeit, Opladen: Leske and Budrich.
INE (2012), Estatísticas da Construção e Habitação, Lisboa: INE.
Martin, A. (1997) What does globalisation have to do with the erosion of welfare states?, Cambridge, MA: Program for the Study of Germany and Europe Working Paper Series 7.5, Center for European Studies, Harvard University.
Mitchell, D. (1995) ‘The End of Public Space? People's Park, Definitions of the Public, and Democracy’, Annals of the Association of American Geographers, 85, 1, 108-133.
Sheller, M. (2004) ‘Mobile publics: beyond the network perspective’, Environment and Planning D: Society and Space, 22, 39-52.
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Teeple, G. (1995) Globalization and the decline of social reform, Toronto: Garmond Press.
Wellman, B. (2001) ‘Physical place and cyberplace: the rise of personalized networking’, International Journal of Urban and Regional Research, 25, 2, 227-252.




[1] European Health Report, OMS, 2002
[2] Comunicado de Imprensa, Francisco George, 11 Março de 2014, em www.dgs.pt
[3] Sami Kokko, PhD Senior Researcher, Research Center for Health Promotion, em www.triple-ac.net
[4] Programa Nacional de Intervenção Integrada sobre Determinantes da Saúde Relacionados com os Estilos de Vida, DGS, 2004, p.2
[5] Comunicado de Imprensa, Francisco George, 11 Março de 2014, em www.dgs.pt
[6] Twisk, J.., Kemper, H.., and van Mechelen, W. (2000).Tracking of activity and fitness and the relationship with cardiovascular disease risk factors. Medicine and Science in Sports and Exercise, 32 (8), pp. 1455-1461
[7] Moore, L.L., Lombardi, D.A., and White, M.J. (1991). Influence of parents’ physical activity levels on activity levels of young children. Journal of Pediatrics, 118, pp. 215-219.
[8] Edwardson, C.L. and Gorely, T. (2010). Parental influences on different types and intensities of physical activity in youth: A systematic review. Psychology of Sport and Exercise, 11 (6), pp. 522-535.
[9] Okely, A.D., Booth, M.L., and Patterson, J.W. (2001). Relationship of physical activity to fundamental movement skills among adolescents. Medicine and Science in Sports and Exercise, 33 (11), pp. 1899-1904.
[10] Gray, Peter (2011) ‘The Decline of Play and the Rise of Psychopathology in Children and Adolescents’, Academic Journal of Play, vol.3, n. 4, pp. 443 – 463

Arquitecto Daniel Lobo
Bike Tour “By the Limits of Lisbon”: in solidarity with the children of bairro da Torre
Saturday, September 30th, 2017

This event will have the collaboration of Architect Daniel Lobo, master in Urban Studies and PhD in Urbanism at FA-ULisboa.



Departure and Arrival Location: Terreiro do Paço (Praça do Comércio)
Departure time: 9:30 am
Lunch: bairro da Torre, Camarate, Loures
Arrival time: 5:30 pm


Registration
Please send an email to bikeeliseu@gmail.com with your name and in the subject write "Registration on the bike tour by the limits of Lisbon"

Contribution for the tour
From 15 € with lunch included (can pay at Torre neighborhood after lunch or until 30th of September by bank transfer to the account 0033 0000 4546 1209 5120 5)

THE CONTRIBUTION WILL REVERT TO THE COSTS OF LUNCH AND THE REMAINDER FOR THE CREATION OF A COMMUNITY BIKE REPAIR SHOP FOR THE CHILDREN OF BAIRRO DA TORRE!

Note: anyone who wishes to participate and is not able to contribute will be our guest (includes lunch)! (subject to a limited number of participants)


OBS:

1) We will only do this tour if there are at least 10 people registered.
2) In case of adverse weather conditions or any other impediment we will communicate by email in advance.

3) Lunch will be a typical dish from São Tomé - Cachupa de Carne - and will include a drink.


PEDALAR e PATINAR sempre foi para mim semelhante, quer no prazer que obtenho quer na aplicação dos músculos. Faço ambos com igual prazer e alguma destreza.

E sempre encaixei os pés em botas que me parecem semelhantes, quer para um fim quer para o outro...
Só que os utensílios utilizados me parecem num dos casos além de mais complexos, muito mais envolventes - refiro-me como é evidente à bicicleta... E no outro a discrição, a integração e a harmonia são mais subtis e uniformes no seu conjunto - os Patins.

Na divulgação e incentivo da mobilidade suave e alternativa pelas vias urbanas, sem duvida que a bicicleta tem ganho muito mais pontos e dignidade. Até porque os apêndices que nos ajudam a bicicletar mais rápido são cada vez em maior número.

Adoro apêndices de reforço para que a deslocação seja de facto mais rápida e eficaz.

Os que mais uso estão todos ligados com a alimentação!
E claro também os físicos saídos do desenvolvimento do corpo.

Sou grande adepto das extensões de agilidade e do reforço dos dorsais e abdominais. Sem duvida outros auxiliares.

Percebi há muito que na bicicleta os abdominais são o melhor auxilio para as acelerações. Sentado e de pé quem nos ajuda mais são uns lombares vigorosos. Não te parece companheiro?

Amigos, eis uma boa dica para ser um ciclista melhor que há uns anos tive o privilegio de perceber quando o estirador de desenho me deu cabo das costas e o fisioterapeuta me pôs a fazer abominais, alongamentos e dorsais, e, contrariando os concelhos médicos me meti no ciclismo!
Comprei então a primeira bicla! (piscadela de olho!)

Não há nada mais agradável do que pedalar ou patinar sem esforço e rápido. Confiante e fluido, como respirar ou dançar.

Hoje temos outras ajudas.

O auxilio elétrico, sim, fundamental.

E se pensa que isso nos irá tornar preguiçosos, engana-se... Em minha opinião irá trazer mais gente para a rua e os mais velozes já não vão necessitar de se agarrarem às viaturas que os podem molestar.

Só que, na opinião deste vosso colega, com auxiliares mecânicos já nos devemos sujeitar às regras gerais de todos os veículos movidos a motor.

Vejam a crónica perversa relativa aos vermelhos e ao contra- mão

Uma pedaleira SIMPLES é uma extensão do corpo tal como uns patins, uma perna de pau ou uma bengala.

Se quando vais de bicicleta (não a elétrica, até porque as elétricas pesam à brava!) um Policia te lembra que agora se há regalias também há deveres para se cumprir, fica ele sujeito a observar um ciclista transformar-se em peão, seguir pela passadeira e pelo passeio com ela à mão... Ou desencaixando as rodas dos patins vê o patinador transformado em peão prosseguir!

E, para enfatizar o ato, naquele dia em que contornei o vermelho no percurso dos peões até levantei a bicicleta (que me ia levar a fazer 150km) do chão, tal e qual uma bagagem de mão.

Patins e bicicletas são apêndices do nosso corpo e não viaturas sem motor como nos querem fazer crer.

Pedaladas e patinagens Felizes para Todos

Eliseu33